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VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (05.09.10)

Lucas 14, 25-33.

“Quem não carrega a sua cruz...não pode ser meu discípulo”

 

            Aprofundando o seu ensinamento sobre o discipulado, Jesus aqui expõe as condições para um verdadeiro seguimento. À primeira vista, a leitura pode nos chocar!  Pode até parecer que Jesus esteja ensinando algo que não condiz muito com os ensinamentos cristãos.  Isso especialmente se a tradução da nossa bíblia fala que nós devemos “odiar” os nossos pais e família! (uma tradução literalmente correta).  Mas aqui - de novo - estamos diante do problema das culturas e das línguas.  Pois este texto nos traz um “semitismo”, ou seja, uma expressão de uma língua semita (no case de Jesus, o aramaico) que tem que ser interpretada no contexto da cultura que aquela língua expressa.  O aramaico e o hebraico usavam muitas expressões assim, que não tinham a mesma força que têm em português.  Realmente o termo traduzido por “odiar” significava “desapegar-se”.  Então podemos traduzir em termos inteligíveis portugueses: “Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim do que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo”. (v. 26)
Jesus quer deixar bem claro - como ele faz muitas vezes “na caminhada” - que a opção pelo Reino necessariamente exige renúncias.  Não só renuncia do mal e do pecado, mas renúncia de coisas altamente positivas em si; não renúncia por renunciar, mas em vista dum bem maior - o Reino de Deus, o único bem que pode satisfazer plenamente os anseios mais profundos do coração humano.  Por isso, a vinda de Jesus pode ser visto como a crise escatalógica última - pois põe todos nós diante da opção mais fundamental - quais são os valores reais da nossa vida?
No mundo pós-moderno, onde se foge dos compromissos permanentes, onde tudo é relativizado, os desejos individuais são absolutizados, e a subjetividade se confunde com o individualismo, esta proposta soa como contra-cultural.  Pois Jesus nos convida a definir os valores mais profundos da nossa vida - e insiste que nada,  por tão valioso que seja, possa ser mais importante do que a dedicação total ao Reino.  Claro, ele não obriga - estamos livres para recusar esta exigência - mas então não seremos discípulos dele!  Aqui põe em cheque a vivência do cristão que “não é frio nem quente, mas morno”, e por isso mesmo “está para ser vomitado da minha boca” ( Ap. 3 16).
O tema da cruz reaparece aqui - e de novo lembramos que “carregar a cruz” não é de maneira alguma simplesmente “sofrer”.  É a conseqüência de uma coerência com o projeto e a proposta de vida de Jesus.  É condição imprescindível para quem quer ser discípulo dele: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v.27).  Podemos dizer que, se o trecho que precede este texto (vv 15-24, “Um Rei fez um grande banquete”) enfatiza a gratuidade do chamamento da parte de Deus, estes versículos salientam o outro lado da medalha - a resposta incondicional dos discípulos.  Todo o Evangelho de Lucas - como também os outros - deixa bem claro que esta resposta é a meta da nossa vida.  Ninguém começa a caminhada com total dedicação ao Reino - mesmo que pense que faz!  É na caminhada de anos, com as nossos incoerências, tropeços, erros, e traições, que a gente aprende a ser discípulo/a.  A experiência de Pedro e dos Doze que nos diga!
As duas parábolas seguintes - a do construtor tolo e do Rei que vai à guerra - nos ensinam a necessidade de reflexão antes da ação.  Ou seja, aqueles que querem seguir Jesus devem refletir sobre o preço a pagar.  A situação triste do construtor falido e do rei derrotado são símbolos da situação do discípulo que desistiu “pelo caminho”.
A reflexão sobre as exigências do discipulado pode nos desanimar diante da realidade das nossas fraquezas, a não ser que reflitamos também sobre a gratuidade de Deus que não nos abandona, mas nos ama como somos, e nos dará forças para a caminhada.  Assim foi a experiência do grande discípulo Paulo, que após longos anos de experiência, incluindo as maiores experiências místicas e os maiores sofrimentos, pôde afirmar com toda a sinceridade: “Eu não consigo entender nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo que eu quero, mas aquilo que mais detesto...Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero”(Rom 7,15s).  Mas mesmo assim, reconhecendo os fracassos e falhas na sua caminhada de discípulo, exclama com alegria: “Portanto com muito gosto, prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim.  É por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades  perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte ( 2 Cor 12,9s).
Pois, se ele fez a experiência das exigências inerentes ao seguimento de Jesus ele também fez a experiência da graça de Deus: “Para você, basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta o seu poder” (2 Cor 12,9).
Não tenhamos medo de assumir o desafio que Jesus hoje nos lança, pois ele nos dará a graça necessária para a caminhada.  Basta querer e pedir!

 


VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO COMUM (12.09.10)

Lucas 15, 1-32.

            O Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase na misericórdia de Deus.  Se fosse para classificar numa só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos sem hesitação assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo saliente esta convicção tanto como o capítulo 15, que hoje lemos na sua totalidade.
As três parábolas aqui relatadas são entre as mais conhecidas da Bíblia  - geralmente chamadas (com razão ou não) “A Ovelha Perdida”, “A Moeda Perdida” e “O Filho Pródigo”.  Talvez devamos ter um pouco de cuidado com esses títulos - já consagrados pelo uso -  pois já indicam uma possível interpretação do ponto central de cada parábola - não necessariamente a mais adequada!
De fato, cada parábola poderia ficar independente, e ter a sua interpretação fora do contexto da sua colocação em Lucas.  Mas, para que sejamos fiéis à intenção do evangelista, devemos interpretá-las dentro do seu esquema teológico e literário.  A parábola da Ovelha também existe em Mateus, mas dentro de um outro contexto e com outros destinatários, tornando-se a parábola da “Ovelha Desgarrada”.  Em Mt 18,12-14, a parábola é dirigida aos discípulos, enquanto em Lc é contada para os fariseus e escribas.  Como os destinatários são diferentes, também a sua mensagem é diferente nos dois contextos.
Para entender melhor o que Lucas quer ensinar, devemos dar muita atenção aos primeiros dois versículos do capítulo 15.  Pois estes versículos nos fornecem o motivo pelo qual Jesus contou as parábolas, e, por conseguinte, uma chave valiosa de interpretação.  Funcionam como um gancho sobre o qual se pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de impostos e  pecadores se aproximavam de Jesus  para o escutar.  Mas, os fariseus e os  doutores da Lei criticavam a Jesus,  dizendo: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!” ( vv.1-2).  Depois vem a chave de interpretação: “Então Jesus contou lhes esta parábola”(v . 3). Ou seja, Jesus contou estas parábolas porque os fariseus e doutores da Lei o criticavam por associar-se  com gente de má fama!  Então a chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus. 
Neste sentido podemos interpretar a parábola conhecida como a da “Ovelha Perdida”.  Jesus, diante da intransigência dos fariseus, pergunta: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde  uma, será que não deixa as noventa e nove  no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?” ( v. 4).A resposta razoável é “não” - nenhum pastor, com a cabeça no lugar, deixaria noventa e nove ovelhas a deriva para tentar encontrar uma perdida.  Seria loucura!  Mas exatamente aqui está o sentido da parábola - Deus faz loucuras por amor a nós!!  Ele é capaz de fazer o que nenhuma pessoa humana faria - ir atrás da ovelha perdida, custe o que custar, até achar e trazer de volta!  Aqui a parábola funciona não por comparação, mas por contraste - Deus é o oposto dos homens, que só agem através de decisões calculistas.  Faz loucura - e a loucura do amor consegue o que a razão jamais conseguiria, a volta da ovelha perdida!  Assim se faz contraste entre a atitude de Deus e a dos fariseus e doutores da Lei! Nos questiona sobre as nossas atitudes diante das “ovelhas perdidas” das nossas comunidades e famílias! Agimos como os fariseus, com censuras e moralismos, ou como Deus, com a loucura do amor???
Retoma-se a mensagem na segunda parábola - a da “moeda perdida”.  Não que ela fosse de tão grande valor.  Mas para a pobre, até uma moeda pequena faz falta!  Então a mulher faz questão de virar a casa (as casas não tinham janelas, por isso precisava acender uma lâmpada) até achá-la.  É assim com Deus - talvez a gente ache que uma pessoa não tenha grande valor, mas para Deus faz falta, e Ele é capaz de “exagerar” para recuperar a pessoa perdida, por tão insignificante que possa parecer.  Mais uma vez, um contraste com a atitude elitista dos fariseus - e quem sabe, de muitos cristãos hoje!!!
Por fim chegamos à parábola do “Filho Pródigo”, ou do “Pai que perdoa”, ou dos “Dois Irmãos”, conforme a interpretação e o gosto de cada um!  Ficamos somente com o texto sagrado e não com os subtítulos!  Podemos ler este texto a partir do filho perdido, ou do Pai, ou do irmão mais velho.  O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo”.  Assim, ressaltaria o processo de conversão - sentir a situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceito pelo Pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto como tal - mas diante dos primeiros dois versículos do capítulo, não a interpretação primária que Lucas quisesse dar.
Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus, que em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” da sua vida; depois não espera a volta do “pródigo”, mas corre ao se encontro, numa atitude não “digna” dum patriarca oriental idoso, preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e que se alegra com a volta de quem estava morto!  Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável!
Mas o contexto do capítulo quinze, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente - a partir do irmão mais velho.  Pois Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam porque ele acolhe os pecadores!  Então o filho mais velho é imagem dos fariseus - “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas cujos corações estão fechados, a ponto de serem incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a sua atitude contradiz claramente a atitude de Deus!
Aqui Jesus questiona todos nós que somos “praticantes”.  Somos capazes de reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”?  Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai?  Ou somos como o irmão mais velho - “gente boa”, gente de “observância”, mas gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrar-nos com a volta ao estado original do irmão ou irmã perdido/a?
Podemos até dizer que o capítulo quinze de Lucas é o coração do seu Evangelho.  Pois Deus, o Deus de Jesus e o de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta do pecador.  É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estivesse perdido.  É o Deus de misericórdia e do perdão.  Como traduzimos esta visão de Deus em nossas vidas?

 


VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (19.09.10)

Lucas 16,1-13

“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é nas grandes”

            Este texto faz parte de um capítulo aparentemente fragmentado, mas que realmente tem como tema unificador o uso dos bens materiais em benefício dos outros, especialmente dos mais necessitados.  Divide-se em quatro segmentos inter-relacionados: vv. 1-8a; vv. 8b- 13; vv. 14-18; vv. 19-31.  Três destes trechos serão usados hoje e nos próximos dois domingos.
A interpretação popular da primeira parte - a história do “Administrador Injusto”, traz muitos problemas para os pregadores.  Pois, aparentemente, Jesus está elogiando quem agisse de maneira desonesta.  Tal interpretação é moralmente inaceitável.  Por isso temos que olhar bem a história - os estudiosos não estão de acordo se se trata de uma parábola, ou uma “história-exemplo”, que Lucas também usa muito ( 10,29-37; 12,16-21; 16,19-31;18,9-14).
Para que entendamos melhor o contexto da história, é bom saber que os documentos da época atestam que freqüentemente se usava o sistema aqui relatado. Como a cobrança de juros era proibida pela Lei, o administrador embutiu o ágio na “nota promissória”.  Por exemplo, uma pessoa talvez tivesse emprestado 200 litros de azeite, mas por causa dos juros de 100%, a sua conta acusava 400 litros. Então, na história de Lucas, o administrador, enfrentando a demissão, resolve na mesma hora vingar-se do seu patrão - reduzindo as contas devidas ao seu valor real, e assim perdendo para ele os juros - e fazer amigos para ele mesmo, entre os devedores..
O “patrão” ou “Senhor” a que se refere o v. 8a não é Jesus, mas o “homem rico” do v.1.  Ele “elogiou” o administrador desonesto, por sua esperteza!   A palavra grega aqui traduzida por “esperteza” significa uma estratégia prática visando alcançar um fim determinado.  Tem nada a ver com a virtude, no sentido mais geral de agir com justiça.  Assim embora possa parecer, à primeira vista, que Lucas esteja elogiando a desonestidade, a interpretação mais exegética diz que o que deve ser imitado não é a desonestidade, mas o bom senso na administração dos bens materiais.
Para os que entendem o trecho como uma verdadeira parábola, há duas explicações possíveis; uma diz que o que Jesus quer ensinar é que os seus discípulos, quando confrontados com a decisão de seguí-lo ou não, devem agir de maneira decisiva, como fez o administrador quando confrontado com a sua situação de crise, e não vacilar.
Outra interpretação vai na direção do “contraste”: o sentido normal de justiça não condiz com a atitude condicente do patrão em v.8.  Assim se faz contraste entre a maneira de agir dos homens e de Deus.  Este ponto de vista corresponde com outros ensinamentos em Lucas sobre a nova justiça, a justiça do Reino e a dos homens - os critérios da “justiça do Reino de Deus” não são os da sociedade, mas exigem o perdão e o relacionamento com os inimigos.
A segundo parte do trecho - vv. 8b - 13 - são aplicações práticas de como os discípulos devem usar os bens materiais.  Indica o entusiasmo dos “que pertencem a este mundo” como exemplo para os discípulos que muitas vezes são insossos no seu seguimento de Jesus. “O dinheiro injusto”, que pertence a um mundo com princípios de exploração, pode até servir aos discípulos quando usado para a partilha com os necessitados, que se converterão em “amigos que “vão receber vocês nas moradas eternas” ( v.9).
Outro ponto destacado é a necessidade de fidelidade diária.  Se nós partilhamos os nossos bens na convivência quotidiana, ganharemos os verdadeiros bens imperecíveis como prêmio eterno.  Mas isso exige fidelidade e lealdade total a Deus - a alternativa é sucumbir às tentações da injustiça que escraviza, - e a gente fica leal a este Deus através da partilha dos bens, especialmente com os mais necessitados.
Embora possamos discutir e debater sobre interpretações minuciosas do trecho, uma coisa é inegável - Jesus quer advertir os seus seguidores sobre a tentação de escravizar-se com o dinheiro, e na mesma hora, exigir que a partilha material seja ponto marcante da vivência dos seus discípulos!

 


VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (26.09.10)

Lucas 16,19-31

“Mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos”

            Este último trecho do capítulo dezesseis continua os ensinamentos de Jesus sobre as riquezas, ou melhor, sobre a questão fundamental da partilha dos bens como necessidade absoluta para os seus discípulos.  Aqui temos a famosa parábola do “Rico e Lázaro”, e também a reflexão sobre o destino dos irmãos do rico.  Levanta a questão: “irão seguir o exemplo do irmão rico, ou atender o ensinamento tanto de Jesus como do Antigo Testamento sobre o cuidado dos necessitados, como Lázaro, e assim se tornarem “Filhos de Abraão”?
Os destinatários do Evangelho de Lucas eram as comunidades urbanas das cidades gregas do Império Romano.  A imagem da parábola é típica da sociedade urbana - tanto a de então como a de hoje!  De um lado, o rico que esbanja dinheiro e comida em banquetes e futilidades, e do outro lado o pobre miserável, faminto e doente.  Ambos vivem lado ao lado, sem que o rico tome conhecimento da existência e dos sofrimentos do pobre!  Quantos exemplos disso existem hoje - lado ao lado com a maior opulência, a mais desumana miséria, e entre as duas situações uma barreira de cegueira e indiferença?
É muito interessante - e importante para a nossa compreensão da parábola - que os vv. 22-26 não dizem que o rico foi para o inferno por que ele fazia algo moralmente repreensível; e nem que Lázaro foi para o céu porque ele era “santo”.  Por isso, por tão inconveniente possa soar numa sociedade como a nossa, dá para entender que este trecho condena o rico simplesmente por ser insensível, em uma sociedade de empobrecimento, e abençoa o pobre pelo simples fato de estar sofrendo a miséria em uma sociedade que esbanja os bens necessários para a vida (É interessante que no texto o rico não tem nome, mas o pobre sim – “Lázaro” que dizer em hebraico “auxiliado por Deus”).  A riqueza torna-se pecado diante da situação desumana dos pobres, pois é a negação da partilha e da solidariedade!  O rico foi condenado por que ele simplesmente se fechou diante do sofrimento alheio.  Este fechamento é a negação de todo o ensinamento do Antigo e do Novo Testamentos.  O simples fato de existir lado ao lado o rico opulento e o Lázaro sofrido, é a condenação de uma sociedade pecaminosa que permite esta situação anti-evangélica.
A segundo parte da história, versículos 27-31, continua com o diálogo entre o rico e Abraão, e mostra claramente que a sua indiferença diante do sofrimento de Lázaro não estava de acordo com o Antigo Testamento (vv. 29-31), e nem com Jesus (v 9).  Enfatiza que nem manifestações milagrosas vão mudar o coração duro de quem  não quer ouvir a Palavra de Deus: “E Abraão lhe disse: “Se eles não escutam a Moisés e os profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos”. ( v. 31)
Palavra tão atual!  Pois não é por falta de conhecimento da Palavra de Deus que o mundo se acha na sua situação atual.  Não é por desconhecimento do ensinamento de Jesus sobre a fraternidade e a solidariedade, que temos uma sociedade excludente hoje no Brasil!.  Não é por falta de celebrações litúrgicas e sacramentais que há tanto sofrimento nas nossas ruas e bairros!  É simplesmente porque a sociedade opta por se organizar conforme critérios anti-evangélicos, e porque tantos cristão reduzem o cristianismo à uma serie de leis e doutrinas - muitas vezes não ultrapassando muito uma simples lista de “boas maneiras”.  Optamos por diluir as exigências do Evangelho para que possamos continuar com os “ricos” e os “Lázaros” de hoje, lado ao lado, sem que estes incomodem aqueles!  Sabemos o que a Bíblia diz, conhecemos muito bem o ensinamento de Jesus - e continuamos na construção de uma sociedade injusta, fundamentada sobre a idolatria do lucro, com a conseqüência automática do sofrimento e exclusão.
O rico e Lázaro continuam morando hoje em nossas cidades. Jesus hoje nos desafia para que optemos para uma outra forma de sociedade, onde todos terão acesso aos bens necessários para uma vida digna.  Se não queremos ouvir o que nos diz a Palavra de Deus, se nós queremos continuar surdos diante do grito dos excluídos, então o nosso destino será também aquele do rico da história.
“Tenho medo de não atender,
De fingir que não escutei;
Tenho medo  de ouvir teu chamado,
Virar doutro lado e fingir que não sei!  “
Lucas não deixa que o leitor evite as questões gritantes da ligação entre fé e  vida, entre religião e economia, como a Campanha da Fraternidade deste ano nos conscientizava!
Tomaz Hughes SVD
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