Mt 5, 17-37

“Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrarão no Reino do Céu”

 Quando lemos o Evangelho de Mateus, é muito importante ter em mente o contexto histórico em que foi escrito, pelos anos 85-90 do primeiro século da Era Comum. Depois do desastre da Primeira Guerra Judaica, culminando com a destruição de Jerusalém e do Templo (que nunca mais seria erguido, diferente da sua destruição pelos babilônios em 587 aC), o povo judeu e a sua religião enfrentavam a possibilidade de desaparecer para sempre. Um grupo de rabinos reorganizou o judaísmo a partir de um tipo de “Sínodo” em Jâmnia, perto da atual Tel Aviv, no ano 85. Sem Templo, sem sacerdócio, sem sacrifício, esses mestres de Lei, quase todos os fariseus reestruturaram o judaísmo, ao redor da uma identidade proveniente de uma adesão estrita à Lei, a Torá. Diante da fraqueza do judaísmo, não admitiam nenhuma divergência da sua interpretação da Lei, nenhuma dissonância diante das comunidades judaicas. Mas, no seio do judaísmo existia um grupo de discípulos/as de Jesus de Nazaré, que aceitava a Lei como autoridade, mas com a interpretação vinda dos ensinamentos do seu mestre, Jesus. Como consequência, começou um processo de expulsão desses judeu-cristãos da comunidade da sinagoga e se tornou muito importante para eles entender a sua relação com a Lei, e o que tinha mudado com o ensinamento e exemplo de Jesus, o Mestre. 

O nosso trecho do Sermão da Montanha de hoje começa exatamente situando Jesus diante da Lei. A primeira parte enfatiza que Jesus não rejeitou a Lei; mas, veio dar a ela o seu pleno cumprimento, o seu verdadeiro sentido. Portanto, as comunidades mateanas não precisavam sentir-se como traidoras da Antiga Aliança, pois a Lei encontrou a sua verdadeira expressão na vida, ensinamento e opções de Jesus de Nazaré.

Devemos superar uma visão errada dos fariseus que frequentemente existe entre nós, entendendo esse grupo como hipócritas (essa ideia vem da linguagem polêmica de Mt 23, que reflete mais os conflitos do tempo do escrito do que a visão de Jesus). Mas, o texto de hoje mesmo assim é contundente quando Jesus declara aos seus discípulos (e a nós hoje!): “se a justiça de vocês não superar a dos doutores da lei e fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (lembremo-nos que em Mateus “Reino do Céu” é sinônimo com “Reino de Deus”, só que tendo comunidade judaica, ele substitui o termo “Céu” por “Deus” por motivos de reverência diante do nome de Deus). Como foi a justiça dos fariseus? Era uma adesão estrita à letra da Lei. Como superar isso - ir além da letra, ao espírito da Lei, que existe para que a vida abunde. Muitas vezes a letra mata, mas o verdadeiro espírito da Lei defende e promove a vida.

O texto de hoje vai ao âmago da questão. Insiste que não é o suficiente simplesmente obedecer à letra a lei, não matando, não cometendo adultério etc. O discípulo de Jesus tem que tirar a raiz dessas ações más. Pois às vezes não se pratica uma ação má por falta de oportunidade ou medo, mas a raiz do mal está no pensamento, no coração. Por isso devemos cortar a “mão” que nos leva ao erro (mão = maneira de agir) e arrancar o “olho” errado (olho = a nossa maneira de enxergar as coisas, o nosso pensamento). Devemos cuidar com essas expressões tipicamente semíticas e, obviamente, não levar ao pé da letra.

O trecho do sermão termina com um apelo à criação de uma sociedade de transparência e honestidade, pois só se pode dispensar a garantia do juramento, quando não há dúvida que todos falem a verdade. O grande político Bismarck falou que não se podia dirigir um Estado baseado no Sermão na Montanha - mas somos desafiados a construirmos famílias e comunidades com esses princípios, para que já comecemos a vivenciar os valores do Reino, ultrapassando a letra e vivendo o espírito da Lei, à luz de Jesus.

+ Pe. Tomaz Hughes SVD

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