Mc 10, 17-30

“Como é difícil entrar no Reino de Deus”

            O nosso texto inicia-se com a frase: “Quando Jesus saiu de novo a caminhar”. Novamente estamos na caminhada com Jesus, uma caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva cada vez mais perto a Jerusalém, lugar da crise definitiva da sua vida. Ao longo dessa caminhada, Jesus luta com a incompreensão dos seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante, e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a reviravolta de valores que Jesus e a sua mensagem significavam. Nos domingos anteriores, vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. No nosso texto de hoje, Jesus põe em cheque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza.

A cena é muito conhecida - um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Em um primeiro momento, Jesus coloca diante dele a exigência conhecida por todo judeu piedoso e ensinada pelas escolas rabínicas - o cumprimento dos mandamentos. Mas o homem - sem dúvida um praticante piedoso da Lei - sente que isso não é o suficiente, pois é o mínimo. Assim, Jesus põe diante dele as exigências do Reino - o seguimento d’Ele, o despojamento dos bens, a partilha e a solidariedade. Isso o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado aos seus bens, pois era muito rico (v. 22). Fez a sua opção - optou por uma vida “regular” que não exigisse partilha nem despojamento, e como consequência foi embora “muito abatido” - pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior.

O centro do relato está no debate entre Jesus e os seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas vezes gastamos muita energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir o seu impacto!) e deixamos de lado o aspecto mais importante - a reação dos discípulos! Eles ficaram “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram “então quem pode ser salvo?”. Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão.

O espanto dos discípulos - também todos judeus praticantes e piedosos - era causado pelo fato de que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerada sinal da bênção de Deus e a pobreza como sinal da maldição (uma ideia presente em certas seitas hoje e que às vezes infiltra certas pregações sobre o dízimo na própria Igreja Católica!). Para eles, quem não iria se salvar era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, o que não é sinônimo de salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus, e diante de tal mistério só cabe à gente calar-se. O Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nesta dinâmica porque normalmente é auto-suficiente, atrelado a um sistema classista e injusto e com grande dificuldade para partilhar e de sentir a sua dependência de Deus.

A proposta de Jesus desafia as ideologias, disfarçadas de teologia e espiritualidade, que vêem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta d’Ele não é a riqueza, mas a partilha; não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver esta proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade, encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição; porém, já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (v. 29-31).

+ Pe. Tomaz Hughes SVD

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