Jo 10, 1-10 “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”

O texto de hoje manifesta claramente o ambiente pastoril da Palestina no tempo de Jesus. Os versículos estão carregados de imagens tiradas da vida dos pastores, imagens rurais que talvez sejam difíceis de serem bem compreendidas no ambiente urbano de hoje.

Porém, a mensagem básica permanece clara, e é de valor perene. Podemos dividir o texto em duas grandes partes. Versículos 1-5 e vv 6-10. Alguns exegetas acham duas parábolas separadas nos vv. 1-5: os primeiros três versículos fazem contraste entre duas maneiras de se aproximar às ovelhas. Quem não entra pela porta é maléfico. Os vv. 3b-5 têm como enfoque o relacionamento entre a ovelha e o pastor. Elas só respondem à voz do seu verdadeiro pastor. No contexto do Evangelho, fica claro que aqui se contém uma advertência contra o perigo de responder aos ensinamentos dos fariseus, que João apresenta como falsos mestres. Podemos atualizar essa advertência para os dias de hoje! Nunca faltam exploradores da fé popular para o seu próprio benefício (na verdade, os fariseus não eram assim, mas a crítica nasce em tempos de polêmica da comunidade joanina e eles).

Ë claro que também aqui temos ecos do Capítulo 34 de Ezequiel, que castigava os lideres do povo de Israel como maus pastores, que se engordavam às custas do povo. Assim as ovelhas estavam dispersas como ovelhas sem pastor (Ez 34, 1-10). Nesse capítulo, o Senhor promete que vai reunir as suas ovelhas dispersas e conduzi-las às boas pastagens (34,11-16). O nosso texto faz compreender que Jesus é o instrumento desta missão de Javé, retrada em Ezequiel, pois é ele o verdadeiro Bom Pastor.

A segunda parte, 10, 7-10, usa as metáforas da porta e do bom pastor. Jesus é a porta do aprisco, e também o bom pastor. João quer insistir que Jesus é a única fonte de salvação. Os que vieram antes dele, provavelmente uma referência aos mestres judaicos e às suas tradições, são rejeitados. É Jesus que veio para que todos tivessem a vida plena.

Aqui é necessário insistir que a missão de Jesus era trazer a vida para todos – não para alguns – e a vida plena, não uma suposta “vida espiritual”. Vida plena, em abundância, exige tanto os bens materiais necessários para uma vida digna, como os bens espirituais. O mundo de hoje, movido pelo consumismo e materialismo, limita a realização humana ao “ter”, enquanto uma religiosidade alienada – muito comum hoje em todas as Igrejas e denominações – faz com que os cristãos se omitam, restringindo a “vida em abundância” para depois da morte. O seguimento do Bom Pastor nos coloca em choque com a sociedade vigente excludente e com a religião alienante. O texto impede que nós nos refugiemos em uma interpretação espiritualista, oferecendo uma vida plena após a morte, pois o Reino de Deus que Jesus anuncia já está no meio de nós (cf Mc 1, 14-15), mesmo que a sua realização plena só acontece no além. O v. 11 nos manifesta o preço a ser pago por ser bom pastor! Jesus afirma que "o bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas” (v.11). Enquanto o mercenário sacrifica as suas ovelhas ao seu interesse, o bom pastor entrega a sua vida até a morte para que os outros vivam.

As imagens do texto são por demais conhecidas. Todos conhecemos cartazes mostrando Jesus como o Bom Pastor. Cumpre assumir a continuidade da sua missão, entregando a nossa vida na luta diária para a criação de uma sociedade mais justa e humana – portanto divina – pois só assim seremos fiéis a aquele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”. Por isso a fé exige participação scial, como no dia 28 de abril – luta pela vida plena de todos/as.

Pe. Tomaz Hughes SVD

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