Pentecostes

Jo 14, 1-12 “Credes em Deus; crede também em mim”

O Evangelho de João inicia o tal chamado Último Discurso de Jesus, com o texto de hoje. Esses versículos – a primeira das três partes do discurso – contém a maioria das referências à partida iminente de Jesus; portanto é o trecho mais apropriado para o contexto da Última Ceia. A moldura do texto consiste em dois mandamentos fortes para acreditar em Deus e em Jesus (vv 1.11). Novamente, cumpre lembrar que “crer“ não é somente uma adesão mental, mas um compromisso de vida – uma atitude vivencial de seguimento de Jesus, no cumprimento da vontade do Pai. O primeiro tema do texto nasce da insegurança dos discípulos diante da partida iminente de Jesus e a perspectiva de serem entregues à sua própria sorte em um mundo hostil, o que ameaça a sua fidelidade e perseverança (cf. 14,27 e 16, 6.20).

Jesus demonstra que a sua partida não é um abandono, mas o início de uma união mais profunda com ele e com o Pai, e que o Espírito Santo os defenderá contra as pressões do mundo incrédulo. Eles têm que alcançar uma fé concreta e firme em Jesus, o Filho encarnado, em que se manifesta a revelação suprema de Deus (cf. 5,38; 8,46-47). Jesus os reconforta com a promessa de uma volta sua, quando ele os reunirá a ele. Aqui parece ter uma referência à parusia, a segunda vinda de Jesus, uma das poucas referências em João à chamada “escatologia final”. Mas é importante que não se limite este retorno de Jesus aos últimos tempos – pois os verbos em v. 3 estão no futuro e no presente! Assim o texto enfatiza a presença de Jesus na sua comunidade, a Igreja. De certa maneira, onde se vive a verdadeira comunidade do discipulado, aquilo que pertence ao futuro escatalógico já acontece.

Tomé mostra que ele entende tão pouco de Jesus quanto as autoridades judaicas (sempre é bom lembrar que, em geral, quando o quarto Evangelho se refere aos “judeus”, está se referindo às autoridades do Templo e não o povo em geral). Jesus explica que ele é o caminho ao Pai, pois ele encarna a verdade sobre o Pai e dá a vida que vem do Pai aos seres humanos. Ele é a única fonte de conhecimento sobre o Pai. Para chegar ao Pai é necessário um seguimento de Jesus mesmo. Ele não é somente um guia no caminho, mas a fonte da vida e da verdade. As palavras de Jesus enfatizam a sua unidade total com o Pai – ele o revela e nem as suas palavras nem as suas obras são dele mesmo, mas nascem da sua unidade com o Pai. Àqueles que crêem será dado o dom de manifestar obras semelhantes e até maiores do que do Filho. Não se trata de fenômenos assombrosos (tão queridos de muitos grupos fundamentalistas hoje), mas do testemunho dos discípulos, animados pela presença do Espírito, para que o mundo creia em Jesus. A maior obra será a criação de uma comunidade alternativa de amor e justiça – a Igreja – fiel ao seguimento radical de Jesus. Estes versículos nos convidam a um profundo exame de consciência sobre a nossa maneira de vivenciar a Igreja – tantas vezes simplesmente uma conglomeração de pessoas, sem partilha, sem solidariedade, sem testemunho profético diante do mundo de classes, de consumismo, de materialismo. Enfatiza a necessidade de recuperarmos a base mística da nossa fé, o seu fundamento. Sem esta intimidade com Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida, as Igrejas facilmente tornam-se grupos unidos por uma crença, uma lei, uma ética, mas não por uma experiência profunda do Deus da vida, manifestado em Jesus Cristo, e nem pela visão que impulsiona Jesus – O Reino de Deus. Para que isso aconteça, o texto enfatiza a necessidade da oração em nome de Jesus, que vai atender a nossa prece (somente em João é Jesus que nos atende – normalmente nos Evangelhos é o Pai que nos atende através da intercessão de Jesus).

O texto vai continuar com uma reflexão trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e ao Pai (vv. 23-24) – o tema é de que a pessoa divina virá e habitará em nós, se obedecermos aos mandamentos.

O texto nasceu na comunidade do Discípulo Amado, em uma época de incertezas e dúvidas. Hoje em dia a nossa Igreja passa por muitas incertezas, duvidas e até às vezes parece balançar. Diante dos questionamentos (até benéficos, na verdade), dúvidas e para ser sincero, escândalos, que frequentemente nos abalam, vale a mensagem central do texto, a certeza da presença de Jesus Ressuscitado entre nós, Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Pe. Tomaz Hughes SVD

 

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